sexta-feira, 11 de março de 2022

Um olhar para o futuro desde o passado

Como alguns saberão, outros nem tanto, em 2011 e 2012 realizei uma viagem que me levou a dar a volta ao mundo e que está espelhada ao longo do início deste blogue. O meu mundo conhecido e o desconhecido. O mundo exterior, da física e da matéria e o interior, aquele da metafísica e da espiritualidade. 

Foram muitos os sentimentos que senti e as necessidades que vi surgirem. Sentimento de tristeza por ir partir e não ver os meus familiares, amigos e pessoas que me são muito queridas por algum tempo. Felicidade por partir e realizar um sonho que há tanto me acordava em noites de insónias. Incerteza pelo que iria encontrar e porque aventuras me esperavam, até se iria conseguir completar o que me propunha fazer: viajar à volta do mundo. Curiosamente o medo estava presente mas era algo que me dava algum conforto pois eu sentia que me deixava alerta. Enfim, com os sentimentos percebi a necessidade de ter um meio de comunicar para casa de forma mais regular e também de acalmar (sim, não imaginam como estava a minha mãe com o facto de eu ir embora um ano e picos pelo mundo fora) quem ficava. Em 2011 as telecomunicações não estavam ainda tão desenvolvidas como hoje e o mundo dos smartphones estava muito no começo. Talvez o exemplo melhor fosse o velhinho blackberry que é um remoto parente dos mais recentes iphones ou outros. Levei comigo um nokia 3310, resistente e compacto para o que podia ser uma viagem com momentos mais duros e menos confortáveis. Tendo tudo isto em mente pareceu-me que o blogue, na época, sem intagram ou um facebook ainda verde, seria o melhor formato. Criei o Trechos do Mundo, nesta plataforma. Trechos pois era isso mesmo que pretendia mostrar ou partilhar, o mundo através dos trechos que me iam aparecendo e que eu ia presenciando, vivendo.

Quero partilhar aqui a lista de países que pensei visitar e que coloquei no blogue

Então a lista de países pensada é:

  • França
  • Croácia
  • Bósnia
  • Sérvia
  • Bulgária
  • Turquia
  • Irão
  • Emirados Árabes Unidos
  • Omã
  • India
  • Nepal
  • Tibete
  • China
  • Vietnam
  • Camboja
  • Laos
  • Tailândia
  • Malásia
  • Indonésia
  • Nova Zelândia
  • Chile
  • Argentina
  • Paraguai
  • Bolívia
  • Peru
  • Brasil (Amazónia)

Hoje olho para esta lista e vejo ambição mas também um pouco de irrealidade. Tinha pensado numa viagem de um ano e se fosse viajar ao meu ritmo, muito devagarinho portanto, jamais num ano completaria esta viagem. Por outro lado vejo países que sempre me chamaram atenção e que ainda não visitei. Um dia talvez. Mas lá irei com calma. Estou a escrever este texto porque, tal como esta lista, a vida tem-me levado por caminhos que às vezes não são os esperados ou os pretendidos mas sim os que nos são apresentados. Não tenho a Colômbia na lista e no entanto acabou por ser o último país que visitei antes de regressar à Europa e depois a casa. E que tempo incrível lá passei e que saudades tenho da Colômbia.  Portanto às vezes há que aceitar as surpresas ou o rumo e fluir com ele. Talvez isto seja uma perspetiva bonita e até exclusiva de quem viaja com tempo, de quem vive com tempo. 

Chego onde queria. Vivemos num tempo estranho. Não pelo Covid, mas porque temos tempo para refletir e para mudar comportamentos. No entanto não o fazemos. Passados 11 anos desde a minha viagem, continuo a ver as pessoas a viajar apenas e só as suas duas semanas porque têm toda uma vida preenchida com o trabalho, com o cuidar de outros e, felizmente, algumas vezes com o cuidar de si. Talvez seja um sonhador e até um individuo que viva em utopias, mas anseio pelo dia em que mais pessoas possam fazer listas de países e lançar-se pelo mundo fora de encontro a essas aventuras e encontros que só o mundo sabe proporcionar. Talvez a viagem seja lançar-se na construção da casa que sempre quis fazer com as mãos, ou aprender a tocar bateria. Depois desta pandemia passar ainda não voltei a viajar fora da Europa e apenas os relatos que vou recebendo de alguns amigos que o fizeram me deixam sedento de ir lá a esses orientes e ocidentes distantes revisitar amigos, conhecer novas amizades e explorar-me em geografias e momentos à espera de ser revelados. Até lá fico, por onde estou e a seguir este novo rumo que a vida, com todo este tempo que generosamente, me deu. É também uma viagem construir lar. Solidificar amizades e relações. Sentir o ser dentro deste coração que bate em mim e a invasão de felicidade que sinto nestes dias e que aqui partilho convosco.

Tantos andarilhos tem a história e tantos tão desconhecidos. Tantos iluminados tem a história e tantos tão desconhecidos. A viagem mais para dentro é sem dúvida a viagem mais para fora, leva-nos aos limites do nosso universo. Atravessa as ruas da amargura e da felicidade. Por vezes retém-se no largo do êxtase; ou então perde-se nos becos da tristeza. Tanta gente, tanto julgamento. Tanto pensar e sentir. Tanto... Mas onde está o silêncio que nos deixa contemplar e parar. Que nos deixa viver e andarilhar

Espero estas semanas ter um terreno e começar a construir uma casa em madeira. Espero esta semana continuar a delinear o projecto que quero realizar com turismo regenerativo. Espero conseguir criar as condições para me dedicar a escrever mais textos, a amar a vida e as pessoas que a compõem e silenciar para contemplar o que a natureza tem para mim.




Apetece-me escrever, nesta hora ainda coerente, apesar de tardia, algo que é para ser lido de madrugada.

Não sei onde caminhamos hoje, se sobre o manto da história dos vencedores ou dos vencidos. O tempo passa, as vidas discorrem com ele e tudo flui nesse canal dum sentido que o tempo tem. As notícias, as pessoas, o mundo, as pedras, tudo passa pelo anel do tempo e tudo vem em ciclos e se vai em ciclos que apenas levam mais ou menos tempo a se repetir.

Penso quando, antigamente, alguém pegava num livro e de repente as pessoas à volta olhavam indignadas para todas aquelas pessoas que passavam tempo a ler ao invés de trabalhar no campo ou em qualquer coisa que produzisse algo, uma panela, uma espada, uma estátua, etc. Hoje vivemos o mesmo com os telemóveis em que pegamos num e temos acesso a mais informação, a mais mundo e mais coisas que em toda a história da humanidade. Na internet temos sentimentos, ódio por discursos, amor por ideias, curiosidade por estórias e notícias, até notícias falsas e outras verdadeiras. Temos youtube, instagram e spotify, temos tanta coisa que podemos usar para tudo e para nada. E as pessoas que olham para a malta que usa o telefone ficam de sobrolho levantado a pensar que nada produzem aqueles energúmenos que passam a vida a olhara para o telefone. Afinal não se evoluiu assim tanto.

Os livros levavam e levam-nos a pensar, a desafiar a mente, a criar mundos e a tentar perceber a lógica da vida. A internet dá-nos tudo isto e remove de nós a capacidade de reflectir sobre esse mesmo mundo em que vivemos e que ela nos dá. Será? Não será a nossa inépcia e falta de educação enquanto sociedade para utilizar as coisas como elas são? Ferramentas? às vezes passo minutos longos a ver filmes e documentários, a ler livros e notícias que estão dispersas pela internet. Através da janela do meu telefone. Mas também passo horas afim a contemplar montanhas e florestas. A sentir o cheiro de flores e conversar comigo e com outras pessoas. Discutir, conversar, falar, dialogar, logicar ...

Não sei onde caminhamos mesmo. Porque tudo é questionável e no entanto poucos questionam as coisas agarrados ao estado das mesmas em que temos de viver.

Eu viajo pelo mundo, o meu trabalho leva-me a poluir o planeta por um lado com as inúmeras viagens de avião que faço. Sou eu próprio um produto desta sociedade consumista e escudo-me na experiência e mais valia que trago nestas viagens ao proporcionar momentos de autenticidade que teimo e teimam em acontecer. Seja com amigos e famílias que apresento e faço questão de visitar com os meus viajantes, seja com os meus momentos pessoais com os grupos em que sou eu e sou assim. Claro que há pessoas que não gostam, ficam a olhar de sobrolho levantado e a pensar que não estou a produzir algo suficientemente interessante para a sua viagem. Acaba por ser tudo sobre quem viaja e onde estão a viajar. No entanto eu também lá estou e viajo à minha maneira na viagem que possibilito a que seja viajada por cada um que comigo viaje. E que bom!

Todos temos telhados de vidro e o mundo, como o tempo, move-se para a frente e dificilmente voltamos atrás. Ninguém quer perder a tecnologia que salva vidas nos hospitais. Ninguém quer perder os facebooks, instagrams e wikipedias desta vida. Ninguém quer deixar de poder ligar para o outro lado do mundo para ter informações sobre familiares, amigos, etc. Percebo isto, mas gostava que também todos percebemos que, da mesma forma que os familiares, amigos e etc., estão do outro lado do mundo e podemos comunicar com eles pelo que alcançamos até hoje como raça humana, também outros têm de abdicar do que ainda têm para podermos ter essa evolução. É um discurso bonito e sentido da minha parte sem dúvida. Mas também é um apelo aquilo que de mais sagrado há em nós.

Há muitas maneiras de estar no mundo, a ler livros, contemplar montanhas, no instagram, a trabalhar, etc. mas há uma coisa absolutamente essencial que temos de manter e nunca perder. Acredito na nossa singularidade, no nosso interior único que tem de ser descoberto e posto ao serviço, primeiro, de cada um e depois do todo. Temos de ser mais ovelhas negras, não a desafiar a autoridade, mas a questionar o que nos rodeia e o que queremos. Temos de exigir que nos oiçam e nos dêem a possibilidade de sermos nós e só quando o conseguirmos fazer haverá possibilidade de saber onde caminhamos, para onde caminhamos. É que do lado dos vencedores estamos a caminhar para vencidos e do lado dos vencidos apenas reza o que os vencedores escrevem e em nenhum deles está uma história do que verdadeiramente somos senão do que temos feito.



De Buenos Aires a Porto Alegre parte III (Argentina, Uruguai e Brasil)

Booom dia e boaa semana!

Então continuando a saga da viagem que estamos a fazer até Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, hoje venho iniciar a semana com as praias do Uruguai! Yeeey

Porém, antes de continuar com as praias queria abordar um tema, mate vs chimarrão. A importância deste tema é que nos é sempre oferecido, seja em boleias, seja em ambiente social quando conversamos ou estamos com alguém que viva entre a Argentina, Uruguai e o estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

Mate vs Chimarrão

Pois é! Já muitos ouviram falar que na Argentina e no Uruguai se bebe mate. Mas afinal o que é isto do mate ou do chimarrão. Bom, na verdade o mate não é mais que uma infusão feita a partir da erva-mate e que é já bebida deste tempos beeeem antes dos europeus chegarem à américa do sul. O mate é preparado numa cuia (tigela) e bebido por uma bombilla (espécie de palhinha com furinhos na ponta que entra no mate para filtrar as ervas do chá). A grande diferença entre o mate e o chimarrão, e que o primeiro tem a erva menos moída que o segundo. Ele é colocada na cuia, depois mete-se água quente e dá-se à primeira pessoa para beber. Esta sorve a bebida e repete-se o processo até acabar a água ou todos estarem satisfeitos. Fácil não é?

Parte da Argentina, o Uruguai e no Rio Grande do Sul, Brasil, a cultura predominante é a gaúcha, a par de algumas tribos que ainda subsistem e dos descendentes de colonos alemães, italianos e portugueses. Assim no Rio Grande do Sul bebe-se chimarrão e no resto das terras gaúchas mate. Nunca se nega mate a ninguém e quando estamos satisfeitos de beber o mate que partilham connosco, simplesmente agradecemos e da próxima vez que for o nosso turno de beber já ão nos é oferecido. Leiam aqui um pouco mais se tiverem interesse.
Mate                                                           Chimarrão

Existe ainda uma solução fria que se chama tereré e que é igual ao mate/chimarrão mas frio.

Agora quando passearem por estas bandas já sabem o que levam aquelas senhoras e senhores nas malinhas de cabedal ou porque andam com um termo de água (e não uma baguete) debaixo do braço e uma mão sempre ocupada a segurar um recipiente.

Punta del Este, Punta Rubia e Cabo Polónia

Agora no que concerne à viagem saímos então com ... chuva, outra vez, de Montevidéu, e, por isso, optámos por viajar de autocarro outra vez. Mais uma vez na companhia COT e saímos de manhã em direcção a Jose Ignacio onde iríamos encontrar dois amigos da Cami, a Mika e o Nacho, ambos uruguaios, mas que vivem parte do ano a trabalhar na Itália e outra parte a trabalhar e descansar no Uruguai.

Lá fomos atravessando a paisagem maioritariamente urbana nos arredores de Montevidéu, depois mais verde com eucaliptos e outras árvores mais locais pontuadas por praias. O Uruguai é um vasto campo de cultivo e pastoreio. Campos de vacas a pastar vão-se intercalando com campos cultivados com soja e cereais (milho ou arroz). São assim as grandes produções do Uruguai: leite e seus derivados; carne; soja; milho e arroz. Antes dos europeus lá chegarem já não haviam grandes florestas, mais índios e campos fartos em relva e vegetação rasteira. Depois foram-se matando e isolando os índios para ter acesso a essas terras férteis que eram ocupadas com vacas, ovelhas, cabras e diversos cultivos para alimentar todos estes animais e as pessoas. E assim se foi desenvolvendo a economia que ainda hoje se baseia fortemente nestas actividades fora das cidades.

Mais recentemente e com a descoberta da ida à praia como actividades de férias, começaram a crescer as cidades junto das praias. Uma espécie de algarve lá do sítio onde Punta del Este é a Vilamoura lá da zona. Prédios altos, vivendas, campos de golfe, clubes nocturnos, restaurantes e uma catrefada de coisas caras para se fazerem antes, durante e depois dos mergulhos no mar.

Fiquei muito desapontado com Punta del Este. Já tinha ouvido falar de ser fixe, mas vendo de perto não passa de um aglomerado de habitações (que variam entre o mais e o menos luxuoso, o bonito e o feito), vazias durante grande parte do ano e que se enchem de vida com os citadinos que assim têm uma cidade onde passar as férias não tendo de fugir muito dos supermercados perto de casa, os ares condicionados, os restaurantes com tudo do bom e do melhor. É uma triste sina esta em que se transformam as férias. Não mais que uma extensão do conforto e do que temos em casa. Cada vez se quer descansar mais não pensando, não olhando para dentro, não participando do local. Ao invés, quanto menos se fizer e mais adormecidos estivermos da vida em casa melhor. Assim temos de voltar para a "vida real" no final das férias. Não, a vida está a acontecer sempre, é real e temos de a viver como gostamos de a viver, sempre despertos e não adormecidos!

Enfim, deixando Punta del Este passamos na ponte mais fixe de sempre, uma ponte ondulada que se chama puente leonel Viera ou puente de la barra.

Ponte ondulada (foto da net)
Chegados a Jose Ignacio, ou melhor à entrada desta vilazinha junto ao mar. Conseguimos comunicar com quem nos esperava que ainda não tinha conseguido sair de onde estava em Punta Rubia, pelo que decidimos ir directos até lá e tendo ja perdido o autocarro que seguiu viagem decidimos ir à boleia. O sol abriu e á nos colocámos na estrada de dedo esticado. Mais à frente falo de andar à boleia, por agora foco-me na viagem.

Demorou cerca de 10 minutos mas lá passaram duas argentinas que nos levantaram e deixaram na estrada nacional onde depois de uma hora, mais ou menos, lá passaram dois uruguaios de férias que nos levaram mais uma rapariga argentina até Rocha. Daí formos outra vez à boleia com um surfista e construtor de pranchas de surf até La Paloma, onde nos apanharam dois colegas que trabalhavam num hostel em Punta Rubia onde acabámos por dormir depois de encontrar os nossos amigos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

De Buenos Aires a Porto Alegre Parte II (Argentina, Uruguai e Brasil)

Hooolaaa!!!

E ahi cumpis? No post anterior fiquei-me pelo relato de Buenos Aires e a travessia para Colonia del Sacramento, já no Uruguai!


Uruguai

Esta foi a minha primeira visita ao país onde o gado, a soja, a Cumparsita, o Galeano e o Mujica são hoje conhecidos a nível mundial e local 😀

Foi um regresso da Cami ao Uruguai e a minha primeira visita a um país que neste momento é o menos corrupto e o mais politicamente estável na América do Sul. Lá, sem mensalões; onde os militares não são vistos como antidemocráticos como noutros países (apesar da ditadura militar que o país enfrentou nos anos 70/80); a esquerda segue sem ser corrompida; a turbulência inicial, após a sua formação como país é apenas uma memória longínqua, a vida política segue tranquilamente o seu rumo, à esquerda, mas com probabilidade, alta (pela primeira vez em 15 anos), de virar à direita.

As causas desta virada são o aumento do custo de vida e da criminalidade. Cerca de metade da população vive me Montevidéu (a capital) e o resto no campo (ao redor). Existe por isso um aglomerar de pessoas numa grande metrópole sul americana e, claro, o aumento da criminalidade é apenas um dos aspectos visíveis. A poluição, os problemas de água, a crispação com quem vive no campo, o aumento do preço dos combustíveis, dos bens alimentares e alojamento estão entre as principais razões de queixa do povo uruguaio.

Isto tudo no país do José Mujica, ou Pepe Mujica, para os amigos que apesar do seu passado de guerrilheiro conseguiu chegar ao poder devido ao carisma, abertura e honestidade para consigo mesmo e o seu estilo de vida e crenças políticas, éticas e sociais. Para quem quiser saber um pouco mais sobre este velho progressista e raro exemplo de lucidez entre os políticos actuais, deixo aqui uma recomendação de um livro muito bom, "Uma ovelha negra ao poder".


Enfim, viajar traz estas coisas boas, como andar à boleia, comer local e conviver muito com as pessoas do dia-a-dia, de várias profissões, zonas do pais e áreas e permite construir uma ideia e uma imagem do que é esse dia-a-dia muito mais próxima do que ele realmente é. 

Colonia del Sacramento

Fundada pelos portugueses para controlar o fluxo de prata e gado que se começava a espalhar pelo Uruguai no século XVII (google it) e desta forma reclamar para si dos espanhóis esta região imensamente rica em ... potenciais pastos. A cidade trocou de mãos várias vezes durante os séculos seguintes até ser definitivamente uruguaia aquando da proclamação da criação e independência do país. Hoje é um dos principais pontos turísticos onde os argentinos e outros param na viagem para Punta del Este ou outras zonas de praia ao longo da extensa costa uruguaia.

Ao deambular pelas ruas da cidade e depois de sairmos do barco, tendo trocado dinheiro pelo caminho (recomendamos que o façam na avenida principal que dá acesso ao centro histórico da cidade onde o câmbio é melhor), cerca de 10 minutos a pé deixaram-nos no centro da cidade onde logo nos apercebemos que o custo das coisas era bastante mais elevado que na Argentina, e no Brasil, e nos outros países sul americanos por onde andámos (quase todos).

Mas bom, as ruas empedradas como uma aldeia histórica portuguesa, as ruínas da igreja e fortificações que lá construímos e a rua de Portugal a meio de algo arquitectonicamente mais diferente de nós deram um ar um tanto ou quanto melancólico e confuso ao sítio. Não sei bem explicar, talvez pela chuva, era como se esperasse ver um mosteiro dos Jerónimos e encontrei uma catedral ortodoxa. Saliento a rua dos suspiros onde, supostamente teriam edifícios de traça portuguesa e talvez o tenham sido há muitos séculos atrás, apenas restam as histórias dos suspiros que os marinheiros davam nos bordéis da rua e que dão assim o nome à mesma.

Rua de Portugal


Rua no centro histórico                  Nós na rua de Portugal

Daí, e por estar a chover, caminhámos pelas ruas e avenidas com frondosas árvores (nisso não nos podemos queixar, é extremamente verde a cidade) até um café, o La Despensa, que recomendamos a ida pela excelente comida. Não é um restaurante mas tem sopas e sandes a par de empanadas e bolos, sucos e chás muito bons.

Não nos demoramos muito e fizémos de autocarro as 3 horas até Montevidéu, isto de andar de boleia à chuva tem muito que se diga e guardamos essa carta para depois. As companhias são variadas e utilizámos a companhia COT que nos pareceu das melhores em relação preço/qualidade e de facto foi.

Montevidéu

Segundo o Jorgito, da Curioso free walking tour, que É UM MUST DO para saber mais sobre a história do Uruguai e da cidade num ambiente mega divertido, informal e com informação muito completa, ficámos a saber locais onde ir comer, sair, beber, encontrar a coisa mais estranha, como a erva abuelita, (erva é o chá para o mate e não é erva do tipo marijuana) que é composta com marijuana (devido à liberalização de produção e venda da mesma) e até sobre o mistério das filas a certos dias da semana para ir à farmácia (sim para comprar agora sim, a erva que se fuma).

 
            Erva Abuelita                                          Foto de grupo da walking tour

Já agora Montevidéu vem de ser o Monte número VI De Este a Oeste quando se navegava entrando pelo mar da plata adentro em direcção ao rio. É verdade, ou não, mas várias fontes o atestam e parece-me uma boa história para o nome da cidade que foi fundada pelos espanhóis em resposta à fundação da cidade de Colonia pelos portugueses (não nos chegava brigar aqui também tínhamos de o fazer lá, imperialismo vá-se lá saber🙈🙉🙊).

O mais importante de salientar desta cidade foram mesmo as pessoas. Mantêm o seu sotaque semelhante ao argentino (top) e são muito hospitaleiras. Os donos de um café onde têm de ir, o Barra 7, apesar de terem sido assaltados uns dias antes, estarem a instalar câmaras e fechados, abriram só para não nos deixar sem comer quando nos viram lá à porta a ver o que se passava lá dentro (o google não disse que estavam fechados para férias). A simpatia, o querer saber sobre nós, a boa disposição são de facto características gerais aos uruguaios. 

                     Fonte na Praça da Constituição ou Praça Matriz                    Catedral de Montevidéu

Mais locais para comer, entre os amantes da carne são o mercado del puerto e o bar 36. Além do assado, o prato nacional é o chivito (uma es espécie de francesinha lá da zona) que em qualquer lugar é bom segundo consta. Experimentamos o vegetariano no bar 36 e era imenso e bom. O original com carne dizem não provámos mas aqui podem saber mais. 

Restaurante no Mercado del Puerto

Para comida vegetariana gostámos muito da comida e simpatia da dona do Hotei Fó.

Finalmente, e seguindo este novo amor pela escalar, fomos conhecer o Pablo (emigrante venezuelano que veio estudar e assim alimenta a sua paixão pela escalada) e o seu projecto que é o ginásio de escalada MBC Montevideo bolder club e onde recomendamos a que vão porque ele é muito disponível, escala imenso, dá bastantes dicas e podem ainda apoiar esta iniciativa incrível.

Ah, claro, para os amantes da banda desenhada (eu gosto) recomendo Club del comic, vale a pena dar uma espreitadela e para ler na livraria Moebius têm um livreiro cheio de ideias e conhecimento sobre o que estão à procura 😆

Para uma noite de tangos e milongas podem ir quase todos os dias ao mercado de la abundancia (piso de cima) e ficar com os mais velhos ou directamente à plaza Seregni (às quartas-feiras) onde se juntam a malta mais nova a noite toda a dançar e tem aulas grátis.

Arte Urbana

Transportes públicos, aka autocarro em Montevidéu são pagos ao condutor e facilmente decifráveis tanto nos letreiros como nas paragens de autocarro. Mais info aqui.

Conclusão

Hoje viajámos de Colonia del Sacramento a Montevidéu, no próximo post vêm as praias, o Mate VS Chimarrão e a chegada ao Brasil e Porto Alegre.

                        Arte Urbana                               Parque Godó                 

Espero que tenham gostado! Até breve e vamos que vamos!

😊🙏



segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

De Buenos Aires a Porto Alegre I (Argentina, Uruguai e Brasil)

Olá a todos,

Após algum tempo sem cá vir aproveito esta energia sul americana para vos vir contar sobre a viagem que eu e a Cami fizemos de Buenos Aires até Porto Alegre passando pelo Uruguai. Sim estamos em Porto Alegre e cá ficaremos umas semanas a recarregar energias e aproveitar o sol e o verão!!! 😂

Nós :)

Após uma semana em que a minha companheira Cami esteve numa imersão de cerâmica pré-colombiana nos Andes argentinos, perto de El Bosón, na incrível região de Rio Villegas, facilitado pelo ceramista Daniel Verniers e a sua companheira Elvia Albornoz que faz tecelagens tradicionais andinas em tear mapuche, apanhei um avião de Lisboa e encontrámo-nos em, ta daaaa, Buenos Aires, a capital do Tango (a par de Montevideo 😅).

Cerâmica produzida pela Cami na formação

Vista da casa em Rio Villegas, Argentina

Buenos Aires

Buenos Aires é a capital da Argentina e a casa de milhões de pessoas. É hoje uma cidade cosmopolita e cheia de pérolas arquitectónicas como o dantesco palácio Barolo, la casa rosada, a catedral, a livraria no antigo ateneu e muitos mais edifícios e zonas como a moderna área de puerto maldonado e as cores de La Boca.

Mural de luta contra a privatização da américa do sul na Av. Lima

Eva Peron na torre da rádio vs Toureiro na av. 9 de Julho

Localizada na boca do rio da plata, rivaliza com Montevideo pela origem do tango. Distingue-se pelo seu sotaque porteño, por lá ter vivido a heroína nacional Eva Peron, pelo obelisco e bairros como San Telmo, La Boca, e por os seus habitantes terem uma opinião formada sobre praticamente tudo (acho que é característica muito sul americana, ainda que não se entre em muitas discussões políticas para não criar guerras familiares ou entre amigos) e são, regra geral, bastante hospitaleiros e intrometidos, num bom sentido, quando percebem que somos estrangeiros.

A comida é quase toda na parrilla, mas também já se encontram opções vegetarianas espalhadas um pouco pela cidade e até em restaurantes mais conhecidos e locais como o Desnível onde, no que toca a carne recomendo o ojo de bife claro ehehe Quem se quiser aventurar pelas cervejas artesanais deixo aqui este link para que possam explorar e experimentar à vontade! Recomendo ainda uma passagem no café La Poesia para um pequeno almoço mais relaxado e num ambiente local, criativo e tranquilo. O pão artesanal deles é bem bom e as empanadas também, a par das meias luas e ocasionais encontros com literatura e poesia.

Café La Poesia                                        Tango, pois claro!

Praticamente em qualquer local se comem boas empanadas a preços muito acessíveis. O mesmo se passa com os alfajores! Quem vai a Buenos aires e não come alfajores, não esteve em Buenos Aires, ponto!!! Para mim os melhores são o Havanna, Cachafaz e o Jorgito. Enjoy entre esta selecção de alfajores!!!

Claro, faltava o tango e as milongas. Deixem de parte o café histórico Tortoni, que é muito caaaaro e cheio de turistas e foquem-se no Maldita Milonga ou na La catedral Tango.

Desta vez ficámos no hostel America del Sur, em San Telmo, o staff é bastante prestável e amigável e os quartos privados e dormitórios bem limpos e tranquilos. Além de ser central e se poder andar a pé para todo o lado, ainda está relativamente perto dos  terminais para atravessar para o Uruguai e tem transportes quase até à porta oriundos do aeroporto internacional de Ezeiza.

árvore centenária porque sim!

Em Buenos Aires pode-se andar de metro e colectivo com o cartão SUBE que é carregado e vai descontando o valor das viagens que anda à volta dos 27 pesos por viagem e custa (o SUBE) 65 pesos. Pode ser feito e carregado em toda a cidade, nas tabacarias e estações de metro e também no aeroporto. Contem com algum tempo para as viagens de colectivo pois a cidade é grande e nas horas de ponta é terrível o trânsito. Os horários dos colectivos às vezes podem ser um pouco flexíveis (já cheguei a esperar quase uma hora pelo 8 no aeroporto, mas também era Domingo).

Atravessando o "mar" de la plata

A travessia dura uma hora e é, geralmente, bem linda ... num dia de sol, em que o barco rasga um imenso mar cor de prata. Com chuva é só castanho. Na verdade é considerado como o rio com a maior largura entre as margens do mundo, cerca de 220 km (para quem considera o estuário como rio e não como baía, golfo ou mar). Nós apanhamos chuva desta feita e os anúncios que passavam nos ecrãs de venda no free shop a bordo de bebidas alcoólicas, maioritariamente, chamaram-nos à atenção.

Exitem várias companhias de barco para atravessar o mar de la plata, apanhámos o Colonia Express, mas a mais barata é a Seacat. Aqui podem ler mais sobre como chegar de Buenos Aires a Colonia e vice-versa, por autocarro ou barco. O preço da primeira é de cerca de 2200 pesos argentinos e o da segunda tem o preço em cerca de 1700 pesos argentinos. Os preços dentro de uma companha podem variar consoante a hora a que se parte do terminal e nos hostéis e hotéis costumam ter serviço de reserva se bem que o podem fazer directamente ou online.

Após esta hora de travessia desembarcamos num terminal a 5 minutos a pé do centro da cidade de Colonia del Sacramento e outros 3 minutos do terminal de colectivos, mas isso vem no próximo post.

Bienvenidos a Uruguay

Pagamentos em viagem (que cartões usar???)

Tenho usado o cartão Revolut sem problemas para levantar dinheiro e fazer pagamentos, mas também já ouvi dizer que o cartão N26 está a bombar e pode ter taxas melhores que o revolut. Investiguem e vejam qual preferem, deixo aqui uma comparação em inglês. Podem ler ainda aqui em português mais soluções como o Ferratum além do N26 e do Revolut.

Conclusão

Foi este o relato e sugestões da nossa breve passagem por Buenos Aires neste Janeiro de 2019.

Deixo-vos ainda um excelente guia de viagens para planearem a vossa viagem a Buenos Aires ou outra que pretendam fazer. É no blogue de viagens de um grande viajante e amigo, o João Leitão.

Se quiserem ainda partir comigo para explorar o Irão, Índia, Indonésia ou Indochina aproveitem para contactar com a Papa-Léguas que ainda existem vagas para as várias datas!

Fiquem sintonizados para nos próximos posts lerem mais sobre o Uruguai (praias, cabos, cidades, comidas e muito mais) e a viagem até Porto Alegre (sim envolve boleias e aventuras), onde vive a família da Camila.

Vamos que vamos 😃🙏


sexta-feira, 1 de junho de 2018

O porto dos sentidos

Hoje acordei com saudades do ... Porto.

É verdade, lá passei a última semana a descansar, a passear e a trabalhar.  É como ir descobrindo uma cidade aos poucos, através dos sentidos e dos sentimentos que ela nos proporciona e partir em busca de viver intensamente tudo isso sem qualquer ideia do que esperar.

Adoro ir ao Porto e caminhar pelas ruelas da ribeira ou do bairro que vai até à Sé. Não sei os nomes de todas as zonas, simplesmente caminho, até à Foz ao longo do rio, vendo helicópteros e barcos sobre o rio com o oceano ao fundo; vendo colinas, que mais parecem escarpas pejadas de casas mais ou menos recuperadas. Vejo velhinhas na Sé à janela, crianças a jogar à bola nas ruas estreitas e mulheres a gritar das janelas ou quando passam que: "ò Joãozinho, tem cuidado que o carro cinzento é o meu", com sotaque claro. Sinto uma energia que é antiga mas ao mesmo tempo boa na cidade. Descer até à ponte D. Luís e ver a malta a saltar e também a pedir dinheiro aos turistas. Apreciar como estas tradições ou brincadeiras se vão ajustando aos tempos. Enfim é triste e é de salutar e todos querem o seu quinhão do tesouro. No entanto o Porto não é como Lisboa. No Porto a cidade ainda vai pertencendo aos Portuenses, sinto-o. Desde restaurantes cheios com gentes locais a comer, até casas ainda habitadas pelos mesmos em praticamente todo o lado. Sim pode estar a mudar há já algum tempo, mas muito menos que em Lisboa.

Talvez por ser uma cidade mais pequena que amaranhou pelas escarpas e colinas acima, e que se faz bem a pé de um lado para o outro eu me sinta bem ali. Talvez seja por passar apenas uns dias e não viver lá que a sua energia me afecta. Mas tudo parece tão fácil de descobrir, de viver e de sentir. Fiquei de certa forma apaixonado pelo Porto sempre que lá vou e que lá volto apetece ficar.


Fica ainda uma reflexão para a forma como as pessoas lá de cima falam cá de baixo, em termos espaciais, como se não conhecessem muito: "ouvi dizer que Sintra é lindo e que a entrada é o terror devido ao trânsito" ou "Lisboa é muito grande e podemos perder-nos a qualquer altura". Eu percebo que também não conhecemos muito sobre o Porto cá em baixo e fascina-me como apenas 300 e tal quilómetros são fruto de tal distanciamento, enfim ...


Muito mais haveria para dizer, muito mais sítios para apontar e para descobrir. Muito mais gente com quem falar e muito mais sotaque para sentir algo diferente. Lisboa está monótona, o Porto está a caminhar para lá, mas ainda tem rasgos de vida que me atraem e mantêm os sentidos alerta, despertos e vivos.

Hoje acordei com saudades de acordar no Porto, comer fruta e caminhar por ruas e ruelas, para cima e para baixo, falando com locais e turistas, descobrindo novos lugares onde ler, trabalhar e passar tempo a contemplar.






quarta-feira, 14 de março de 2018

Surya Namaskar 😀🙏

São 6 e pouco da manhã. 

Estou sentado no raja ghat. Atrás de mim um cão deitou-se todo enroscado. Aqui os cães gostam muito de se deitar ao pé dos humanos apesar dos muitos maus tratos a que muitas vezes são sujeitos!?

No ar espalha-se o som gentil, calmo da flauta que um homem mais velho toca. Passos de pessoas nas suas rotinas matinais ecoam à minha volta misturados com os motores dos barcos que sobem e descem o rio cheios de turistas e peregrinos. 

Homens e mulheres despem-se e banham-se entoando mantras ou conversando. Cães ladram de vez em quando e o bater da roupa nas pedras por parte dos lavandeiros segue ao ritmo das lavagens. A cidade já respira vida. Há uns minutos largos atrás só o cantar dos pássaros, ressonares alheios de quem dorme pelos ghats, mosquitos, cães e mais alguns madrugadores ocupavam o espaço.

Agora tudo se transformou. 

Sereno, ao fundo, num momento em que só a flauta se ouve no seu êxtase, ele ergue-se suavemente. Lindamente, o dia nasce com o despertar do sol e logo após esse majestoso momento tudo volta ao normal. 

O rio flui, a vida corre e nós com ela. 

Levanto-me e sigo o meu caminho. 

Bom dia :)