domingo, 11 de março de 2018

As mil e uma imagens de uma imagem.

Não há forma simples de sumarizar tudo mas destacam-se uma paz e calma interior ao observar o processo. Não pretendo desvendar-vos Varanasi ainda assim quero mostrá-la como a sinto, a uma das suas facetas.

Imaginem uma fotografia. Tem a moldura nos seus contornos e uma imagem no interior onde uma história se desenrola. Os contornos seriam a cidade própriamente dita, Varanasi ou Kashi, a cidade da luz, de Shiva (a consciência absoluta). A imagem que vos relato está centrada no ghat das cremações. O maior, pois há também o pequeno. Aqui centenas de corpos são queimados por dia. Carregados pelas ruas estreitas da cidade em mortalhas de bambu aos ombros de membros próximos ao defunto ou meros carregadores, descem até ao crematório junto ao rio. Ao longo do caminho cruzam-se com a vida diária da cidade e recebem banhos de flores e mantras que são lançados ou cantados pelos carregadores. No fundo estes  preparam a alma para a viagem final e respectiva libertação do seu veículo material.

Chegados ao rio, primeiro mergulha-se o corpo nas águas do Ganges para purificar pela água o corpo sujo pela vida e acções do seu utilizador. Depois seca um pouco e entre rituais, mantras e ser coberto de ghee e madeiras cheirosas, como o sândalo, é velado e acompanhado pelo filho mais velho do defunto nas suas vestes brancas e corpo rapado de quaisquer pelos ou cabelos. Retiram-se alguns tecidos mais preciosos por parte de quem mantém o crematório e que mais tarde serão trocadospor dinheiro. Afinal é apenas um bem material que a alma não necessita e servirá desta forma para atrair mais boas acções na jornada imaterial da alma prestes a libertar-se. Tudo é feito perante os olhos dos familiares que ali estão a acompanhar a viagem final. Tudo é claro e transparente e aceite por todos. Faz parte do círculo da vida afinal e a todos aguarda o mesmo destino e cenário se tudo correr bem. Ao redor alguns corpos ardem já, por vezes com alguns membros espetados para fora das piras. Braços ou pernas mas o mais comum são cabeças caídas que prontamente são devolvidas ao fogo libertador. Mais abaixo, no rio, entre algumas cinzas que já foram garimpadas no meio das piras para quem o fez recuperar dentes de ouro ou jóias que mais tarde troca por dinheiro, alguém se banha e lava a roupa e os dentes. Entre as piras ainda, vacas comem o resto das flores que caíram das mortalhas e cães tentam a sua sorte com ossos que consigam apanhar antes de serem prontamente corridos dali. Os familiares olham e acompanham tudo isto paciente e tranquilamente. Tudo está bem. Entre as piras que ardem e as que esperam o seu corpo, está uma terra castanha escura, preta e cinzenta de cinzas, bosta de vaca e pontos coloridos pelas flores que cairam das mortalhas.

É um local de felicidade e paz. É onde a alma atinge o moksha e se liberta dos ciclos de reencarnação por isso tudo está feliz ou em aceitação. Em casa, uma fotografia do defunto é colocada na parede ou no templo familiar e ali receberá mantras e poojas.

No ghat, turistas observam o ritual dos barcos ou dos degraus misturados com os familiares. O cheiro a carne queimada mistura-se com o da madeira queimada e incensos colocados para atenuar os dois primeiros. Ao redor do ghat barqueiros tentam vender passeios de barco, vendedores vendem chai e chá de limão, outros japmalas e mais artigos religiosos. É só mais um dia de trabalho.

Eu também ali estive a observar a naturalidade com que tudo isto se processa e não deixei de ser invadido por uma profunda paz e calma. Acho que todo o cenário convida a isso e a mistura de tantas coisas não deixa de ser incrível e esclarecedor de quão irrelevante são os apegos e forma como tratamos a morte no ocidente. Aqui tudo é cruamente simples e libertador. A dor existe, claro, mas é logo substituída pela felicidade e aceitação de um princípio, início de algo maior por parte de quem se finou e que todos celebram e vivem no meio da vida que, como o rio, continua a fluir ao seu ritmo e rotinas.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Índia, selvagem e crua.

Às vezes é-me difícil descrever a Índia. Estou agora a caminhar ao redor do complexo do taj mahal. No caminho já vi papagaios verdes a comer sementes no meio de esquilos enquanto duas vacas passavam a comer erva e um cão se espreguiçava ao sol, tudo sob o olhar atento de um kingfisher do alto de uma árvore. Que mais? Bem, muito mais. Cabras e porcos, pavões e corvos, bul bul e não sei quê preto. Pombos e macacos. Jainistas, budistas, cristãos, ortodoxos, muçulmanos, gurus, sanyasas, sadhus, rishis, babas, hindus, turistas e viajantes. De chai, chapati, panir, puris, gulab jamu, leite morno antes de dormir e ghee. De bam bam bolês, ram ram, jap malas, bengalas, chiloms, oms, oferendas e ezans. Paixões, amores e ódios fáceis tal são as convicções e crenças enraizadas. Pobreza e riqueza espiritual a par de extrema pobreza e miséria humanos
No entanto coloridos saris e turbantes, ouro e prata iluminam as ruas. Actores e actrizes de bollywood mas também no dia a dia. Tanta mas tanta diversidade. Caminho pelo meio da selva amazônica parece, tal é o ruído e cantar da floresta. No entanto estou na Índia e por isso esta floresta é feita dos animais, certo, árvores mil, flores com as mais variadas cores e cheiros, plantas e, claro, carradas de plástico. Perguntava-me à pouco se haveriam tantas vacas a passear antigamente, se os animais andavam assim tao livremente e em tanta quantidade como agora. Hum, que boa brisa chegou. Não devia ser assim nos tempos antigos. Apesar de uma maioria hindu os moghuls tinham punho de ferro e seguramente afastaram para o campo as maiorias hindus mantendo-as desinformadas e deseducadas. Talvez isso explique a Índia de hoje e do karma. Talvez não pois a índia é, e sempre foi, igual a si própria: selvagem e crua. Num bom sentido, aquele que nos trás a nós e leva a passar por uma kali ou shiva e pedir que nos destruam o excesso, o ego. Aquela Índia onde as crianças ainda correm semi-nuas a brincar e se misturam com os animais. Aquela Índia de feições e traços carregados, marcados pela vida dura e machismo. É uma Índia única e diversa. De sorrisos fáceis e descomprometidos ainda que às vezes chatos e desesperados. É a India da sobrevivência onde se luta e labuta. Tal como nós quando olhamos para dentro e contemplamos o ser até deixar ele ser. Sejamos selvagens, bons, mas selvagens.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Fluindo pela Índia

Viajar, ver o mundo como ele é, como podia ser ou como foi. Através da janela do autocarro ou do comboio vejo um desfile de vidas cruzadas e ligadas por uma realidade que as une. É sempre assim. O país onde estamos e que por vezes extravasa além das suas fronteiras, afeta sempre a vida das pessoas. Aqui na Índia não é diferente. Desde a mulher com o seu colorido sari ou lehenga e chutnri, até ao homem nas suas bem engomadas kurtas e pajamas tudo se tenta para sobressair ao que rodeia. Pó, sujidade, lixo, pobreza, miséria, às vezes uma procura pela dignidade humana surge e, curiosamente, verifica-se o mesmo para a dignidade dos outros animais, cães e vacas especialmente. Esse ser tão sagrado mas por vezes tão mal tratado. Tudo é contraste e carece de contexto. Um miúdo pobre a pedir comida depois de um dia entre o lixo a apanhar plastico para trocar por dinheiro é apenas um miúdo. Ainda que ganhe vícios e jeitos de adulto ainda mantém aquele sorriso infantil e inocente por algum tempo. As raparigas que fazem o mesmo têm uma tenacidade e inteligência assombrosas. É tudo uma questão de oportunidade mas o karma está aí e, nesta terra, ele é parte das vidas. Aceita-se o que vem, o que se tem e segue-se vivendo. Se as coisas vierem e forem acontecendo, bom, deixa-se fluir e vai-se com a água descendo o rio. Se as coisas não vêm e não forem acontecendo, bom na mesma, continua-se a fluir no mesmo rio. O fim é igual para todos, o mar. As margens variam com as correntes e chuvas mas o rio sempre flui para o mar. Por isso não amo nem odeio a Índia. Vivo-a e aceito-a no seu contexto. Adoro a Índia apesar de tudo isto porque tem coisas só daqui, que só aqui são possíveis. Um sorriso inesperado, um tique com a cabeça, um doce, comida vegetariana, um gayatri mantra, um ganesha, uns pezinhos de lakshmi, diversidade, honra, orgulho único, sorrisos, vida daquela vivida sem filtros, pureza e dignidade em tantas situações adversas. Já cá passei longas temporadas e não sei se cá conseguia viver mas sabe bem senti-la e como nos coloca no nosso lugar. Oh como nos coloca no nosso lugar. Atenção que não é bom nem mau este lugar. É somente quem somos e como somos. Cabendo a cada um lidar consigo, redescobrir-se, revisitar-se, transformar-se. Talvez por isso a Índia seja fértil em santos, gurus, rishis, iluminação. Agora sentado por mais 5 horas neste autocarro, velho, usado, desgastado, forte, venerável, fidedigno, sigo a olhar pela janela. Uma vaca a comer lixo, um miúdo a conduzir uma mota. Um cão coxo e uma mulher que caminha com um bonito sari amarelo. Um homem à minha frente lê o jornal em hindi. O Nyaesh dorme ao meu lado num lugar possível de escolher entre tantos outros mais confortáveis mas queria vir ao meu lado, disse-o com um sorriso humilde, satisfeito e cheio de honra, como se fosse partilhar uma grande aventura. Enfim, deixar fluir e sentir-nos neste rio do qual somos apenas uma gota é, em si, a grande aventura. Jai ganga jai.





quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A arte vietnamita



É sempre uma felicidade imensa regressar a um local que conhecemos e vivê-lo profundamente de novo, senti-lo sempre com um ar de novidade e redescobrir, resentir o porquê dele nos fazer vibrar e estar bem. Seja na montanha, floresta, mar, cidade ou aldeia, esse local é tudo e é todos.

Curiosamente com Ho Chi Min City (Saigão), isso acontece mesmo sendo um destino que inicialmente não ligava e não gostava muito. No entanto com as sucessivas viagens por cá, com as descobertas que tenho feito e, acima de tudo, com o perder-me a conduzir a mota pelas ruas caóticas da cidade (como adoro fazer em quase qualquer lugar no sudeste asiático), há uma energia que me percorre (adrenalina? só? não! é algo mais) e que me deixa vivo, feliz e bem, apesar da confusão, da humidade, do calor e até da chuva e sol que aqui são intensos devido à posição geográfica da cidade.

Vou-me recarregando nos cafés; nos templos calmíssimos por oposição ao resto da cidade; nos jardins cheios de gente a jogar desportos diferentes dos que vemos comummente nas ruas e jardins europeus (badminton, peteca, vólei); nas ruas e avenidas repletas de caos ambulante; nos sorrisos e conversas durante as refeições com desconhecidos ou respectivos donos dos locais onde paro; no tempo que aqui se dedica a tomar o café ou a bebida com calma, entre conversas, jornais ou simplesmente fumar o seu cigarro (não há pressa, é um ritual); com quem para ao meu lado no semáforo e aproveita para perguntar de onde sou e lá respondo macarronicamente com o "Búdáunhá" - é algo assim - que significa Portugal ao  que eles acenam que sim com um sorriso e lá dizem um "sin xao" e mais qualquer coisa que não sei o que é; até na forma fluída e cuidadosa com que conduzem as motas e dançam verdadeiremente (ontem vi uma dança a dois perfeita entre motociclistas, digna de ser coreografada tal era a perfeição, a sincronização, o movimento e a agilidade deles a conduzir).

Enfim, confesso-me mais apaixonado por Ho Chi Min, mas, não te assustes Hanói: continuas a ser a minha favorita ahahaha :)


É mesmo só para partilhar que Ho Chi Min afinal é mais fixe do que parece e me vai revelando e permitindo também sentir esta arte vietnamita, que é esta boa disposição e estar que tanta falta fazem no nosso mundo, fosse assim tudo tão simples :)

#ppleguas #trechosdomundo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Birmânia: um país cheio de contrastes.

Myanmar, ou melhor Birmânia para os amigos! Este país que tem o nome oficial criado num encontro onde os fortes impuseram aos fracos as suas condições e a sua vontade. Assim continua a história volátil de um país fustigado por várias guerras dentro das suas fronteiras e interesses económicos devido aos seus vastos recursos já explorados ou por explorar. Podia escrever um texto sobre isto e tirar ilações, mas prefiro focar-me no que ficou marcado em mim destes 14 dias a viajar pela Birmânia (escrevo este nome porque efectivamente tomo uma posição contra um regime que destruiu e ainda hoje tem repercussões e controlo no país).

A Birmânia é um país de contrastes onde as cidades sobrepovoadas sofrem dos males disso mesmo:  poluição; sujidade; poeira; lixo; lojinhas; restaurantes e motas atulhadas onde é possível atulhar, mercados onde o peixe, a carne e os vegetais sobressaem entre mil e uma bugigangas ao ar livre e onde apenas os sacos de plástico agitados na ponta de pauzinhos pelas respectivas donas  impedem (por vezes com sucesso) que as moscas lá pousem; cheiros fortes; e ainda algumas características da baía de bengala como a paan (mistura de folhas e nozes de betel com especiarias e ... cal) cuspido no chão que dá uma tonalidade às ruas avermelhada e um sorriso avermelhado ou sem dentes a muitos homens e mulheres; ruas onde os homens com os seus longyis com padrões quadriculados e mulheres com uns mais elaborados e coloridos com os rostos abundantemente cobertos de thanaka (árvore cuja madeira em pó se mistura com água e algum óleo essencial e serve de protector e hidratante natural da pele), realizam os seus afazeres; crianças a pé ou em bicicletas e de uniforme a entrar e sair das escolas, enfim uma panóplia de pessoas no seus afazeres diários em praticamente tudo iguais aos nossos.

Toda esta imagem citadina, digna de real preparação para quem quiser ir à Índia, muda com o avançar do comboio saltitante pelo campo fora e transforma-se em tempo parado. Seja nas montanhas onde algumas pessoas ficam surpreendidas com a minha espessa e grande barba preta, seja nas crianças que primeiro desconfiam e depois gritam e correm aos pulos connosco em mil brincadeiras, seja nos adultos que apesar da barreira linguística nos abrem as suas portas de casa onde os mais idosos fumam os seus cigarros verdes apenas com tabaco local e conversam com as visitas que ocasionalmente lá vão passando. A vida ao longo dos rios mantém-se também inalterada com o comércio local e tradicional a voltar a florescer, servindo a  viagem de dois dias de barco ao longo do rio irawady para perceber e absorver mais isto de forma linda e memorável. Em tudo oposto aos opulentes cruzeiros ao estilo de Hercule Poirot pelo rio Nilo, tínhamos tempo para ler, meditar, conversar, ver incríveis pôr e nascer do sol, enquanto combatíamos a corrente rio acima e víamos as vidas, lixo e histórias que o rio quis contar.

Sentimos que o povo birmanês, apesar de vasto (mais de 50 milhões), composto por tribos e etnias diferentes, com lutas internas que em muito dificultam o deslocar pelo país, são hospitaleiros e orgulhosos das suas raízes. Pode não haver noção de nacionalidade enquanto identificação com um país; pode haver pobreza e corrupção; dificuldades em viver e deslocar-se por parte dos turistas mas sem dúvida vale a pena visitar e perceber isto com os olhos para retirar ilações do que é um país em vias de crescimento turístico e dos erros e oportunidades que isso acarreta. Uma palavra ainda de desilusão para a forma como Bagan é tratada, e este local que podia ser UNESCO não é, porque simplesmente todos, deste turistas até ao regime o utilizaram e utilizam à sua vontade sem se responsabilizar pela sua manutenção e esplendor a não ser vender o local sempre e continuamente independentemente de tudo. Infelizmente todos somos coniventes. Há que mudar e repensar a abordagem.

A nossa viagem fica marcada também pelas pessoas que conhecemos e nos acompanharam nestas explorações, o Kyiota e a sua passividade em todas as situações, a Rioko e o seu espanto e interesse genuínos, o Hely com as suas palavras sábias e energia tranquilizadora, o Bertrand e o seu sorriso único e vivo e a incontornável Elena e os seus devaneios e energia contagiante que só o seu sorriso também único sabe expressar.

Em breve fotos para ilustrar os nossos 14 dias de aventuras e desventuras. Agora um mergulho e relaxar a preparar outra viagem! Até jáaa :-)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O generoso luto da Tailândia








"O rei morreu, o rei morreu!" gritava-se nas ruas entre choros e lágrimas agora libertadas pelo fim da vida devido à idade avançada e saúde débil do rei da Tailândia que lhe cessavam assim o seu reinado. O dia chegou, enfim, como teria de chegar e o povo respondeu com saídas e concentrações massivas de pesar em templos, perto dos palácios e, em particular, junto da residência oficial da realeza Tailandesa, o palácio real em Banguecoque onde a bandeira estava já a meia haste desde a declaração oficial da triste notícia que lançou a sombra do luto por um ano na vida dos tailandeses mais devotos. O país adaptou-se à nova realidade e, vestindo agora de preto ou branco, assiste aos ritos e continuação no ciclo do samsara deste homem que tudo fez e tudo deu pelo seu país, na preservação da paz e transição pacífica e sem transtornos demais entre os sucessivos governos militares oriundos dos respectivos golpes que os colocaram no poder.

A Tailândia é hoje um país virado para o turismo nas praias, no sexo, para o moderno, com os seus arranha-céus, lojas de luxo, tecnologia de ponta mas onde o antigo persiste e assenta nas tradições milenares budistas espalhadas pelos templos e monges vestidos de laranja que passeiam por todo o país dando benções e fazendo peditórios. Nos seus mercados encontram-se frutas e comidas picantes como o pad thai ou a papaya salad, sorrisos e conversas honestas, cheiros fortes e intensos e um mundo de negócios e trocas das mais variadas. Polvilhado pelos excessos que o turismo trás (desde o álcool em excesso, passando pela prostituição e degradação da fauna e flora provocada por explorações turísticas entre outros) nota-se um misturar de tradição e cultura com estes ciclos turísticos na exploração desta parte do Sudoeste Asiático. Hoje estou a falar do quanto este povo gosta do rei ido e o porquê disso, através da simples partilha de que é o dia em que o rei faz anos e como tal, praticamente toda a comida em todos os mercados é gratuita a par de alguns transportes (motas e autocarros em particular). Assim foi durante os últimos anos do reinado deste rei que é visto e tido por muitos como santo pois conseguia ter a distinção da nobreza e a linguagem do povo enquanto mantinha a religião sempre ao lado das suas fiéis máquinas fotográficas. Rei por 70 anos, para o mundo público com o nome de Rama IX, para o mundo privado conhecido como Bhumibol Adulyadej, este homem era o profissional da realeza há mais tempo em actividade em todo o mundo na história moderna. Hoje, dia 5 de Dezembro celebrava-se o seu aniversário e mais uma vez todos saíram à rua para comer e beber de borla e todas as revistas vinham com ele na capa, desde as tailandesas até à Vogue, Elle e outras que tais, o rei está presente na vida das pessoas que o vêm agora sim, como verdadeiro santo e pai que do além ainda se preocupa com as suas crias enquanto realiza longos ensaios fotográficos com Buda. Parte por força do destino, parte por imposição pessoal, o rei teve de se valar da sua figura e impor uma presença e domínio fortes junto do povo, com o respectivo culto da personalidade e santificação, como forma de preservar e garantir a transição segura entre governos e períodos conturbados da história recente da Tailândia. Era por isso um ponto de união, mais consensual para quem cá vive, menos para quem observa de fora. O rei passa, morto e não nu e a Tailândia mantém a sua humildade e honestidade nos sorrisos, hospitalidade e comida que distribuem nos mercados e oferecem com tanto empenho e entusiasmo. 


Agora vou degustar este manjar que reunimos eu e a Cami, a pessoa mais linda e incrível, enquanto caminhávamos pelas ruas da cidade de Phitsanulok e que servirá para o jantar de hoje e pequeno-almoço e almoço de amanhã :) Em nossa defesa, até parecia má educação recusar o que nos iam oferecendo tão intrépida e insistentemente! :-)

Entretanto os vistos eletrónicos para a Birmânia estão pedidos e assim que tivermos luz verde, nova aventura por este país que há tanto tempo nos chama! :-) Fiquem ligados :-)

Sorrisos felizes e pensamentos solarengos :-)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A volta!

Apenas um grande e gigante vazio! cric cric cric tudo ecoa, tudo se espalha e tudo se recorda. O passado e o futuro presentes no presente pois nada mais são que isso mesmo: o presente.

Olá a todos desde a última mensagem que aqui coloquei no distante mês de outubro do ano passado. Esta será a última mensagem referente à minha volta ao mundo. Não sei se será a mensagem final deste blogue, mas por enquanto é o que é, o final desta saga que durou mais que um ano e 10 dias e sim um ano e mais uns quantos meses.

Cheguei a Lisboa no final de Janeiro, mesmo tendo aterrado no início de outubro passado. Todavia só hoje cheguei a mim depois do que foi esta viagem. Um processo gigante de autoconhecimento e autodescoberta, de pessoas, momentos, faces, cores e sorriso, mas claro do outro lado de mim também. Muitas são as conclusões que tirei e tiro. Muito é o saber que de nada vale e que possuo em mim agora. A forma mais fiel de ser eu e de conseguir transmitir o mundo que me entrou pela vida e o corpo a dentro somente pelo poder da sensação e da magia o conseguirei transmitir. No fundo penso que é um processo de iluminação na medida em que não a buscando ela chega das formas mais inesperadas, supreendentes e bonitas!

É um processo que contínua e continuará sempre sentido e vivido pelos ecos da memória, do hoje e do agora. Presente é o tempo e o estado! Hoje estou completo, estou forte e estou cheio de mim, do universo e do mundo. Tenho a minha babes ao meu lado e o sentimento de que tudo é possível, tenho o coração cheio de amor e de energia para partilhar e tenho a noção de que nada depende de mim mas de todos. As decisões, as vivências e as opções de cada um serão o maior contributo e a maior bandeira que poderá alguma vez existir pois é nela que mudamos constantemente o mundo (o meu e o teu). Sejam, sintam e vivam.

O mais imporante é que apesar de sentir que tenho isto e aquilo, estou consciente de que tenho apenas o que mais me é precioso, eu, precisamente por não ter nada mais nem eu próprio. É fantástico poder sentir isto e este é o significado da minha volta ao mundo, que não sendo minha é de todos!

 :-)